Quem sou eu
- SeSo Técnicas Interventivas
- Rio de Janeiro, RJ, Brazil
- Este blog tem o intuito de discutir elementos da formação que estamos recebendo na disciplina de técnicas interventivas, que tem a proposta de estudar o processo de amadurecimento da práxis profissional, calcada em dimensões que envolvem o tripé caracterizados como: Competência ético-política, teórico-metodológica e competência técnico-operativa. Competências que se forjam numa prática implicada com um projeto profissional que espelha um projeto de sociedade. O que são os instrumentos de trabalho do profissional de serviço social? Esses instrumentos podem ser mecanismos de aprimoramento das técnicas desenvolvidas pelo profissional? Que relação essas técnicas estabelecem com a dinâmica da realidade concreta? Como essa realidade incide na vida da população atendida pelo profissional em questão? Tentaremos levantar debates em cima dos apontamos da referência bibliográfica sugerida pela professora, bem como trazer autores que discutem a mesma temática em outras disciplinas e, que portanto, fazem parte de um conjunto de mirantes privilegiados do espaço sócio ocupacional do assistente social.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Vladimir Ilitch Ulianov Lenin (1870-1924) – liberdade: o ethos socialista.
Iniciou sua militância revolucionaria durante seus estudos universitários, na Universidade de Kazan, em 1887, em uma conjuntura favorável ao engajamento politico: seus cinco irmãos se dedicaram a luta revolucionaria, um deles sendo executado em um atentado contra tsar em 1886 (Fernandes). De acordo com Hobsbawm, duas determinações contribuíram para que a Rússia se transformasse em um laboratório onde as mais importantes ideias revolucionárias do século XIX iriam ser testadas e desenvolvidas. Por um lado, uma contínua atividade revolucionária, com tentativas de derrubada do tsarismo; por outro, o surgimento de uma intelectualidade com impressionante brilhantismo e vigor cultural (Hobsbawm). Desse modo, práxis politica e práxis cultural – atividades proporcionadoras de motivações e exigências voltadas para a humanidade e para a sociedade, em contextos onde a luta pela emancipação humana se coloca como possibilidade concreta aos indivíduos singulares – formam o pano de fundo do engajamento revolucionário de Lenin e de sua constituição como personalidade politica sagaz capaz de dirigir a sua vida cotidiana de forma articulada com um projeto de sociedade, que é também um projeto de vida.
Com 17 anos, em 1887, já vinculado ao movimento estudantil politico-revolucionário estudantil, Lenin é expulso da universidade, dedicando-se intensamente, ate 1890, ao estudo e divulgação da obra de Marx (Fernandes), pratica comum aos estudantes e a esquerda russa que, conforme Hobsbawm, estava em contato com o que havia de mais avançado no pensamento critico. Segundo ele, os estudantes da universidade de Kazan liam O capital mesmo antes de o livro ser traduzido para o russo. Precisamos e necessitamos urgentemente fazer o mesmo que o Lenin fez. Fazer do O capital o nosso livro de cabeceira. As manifestações populares no Brasil dizem isto...
Lenin formou-se brilhantemente como advogado, em 1891, São Petersburgo, mas não exerceu a profissão devido as atividades politicas, então ilegais. Com 25 anos foi preso e condenado ao degredo na Sibéria, onde ficou por três anos, trabalhando como intelectual, pesquisador e líder revolucionário.
No tempo de Lenin, de Marx e da história dos primeiros movimentos socialistas e marxistas, as atividades politicas eram clandestinas, o que levava os militantes a se exilarem constantemente, devido a perseguições e prisões, mas favorecia o internacionalismo operário socialista. Marx e Engels haviam fundado a Primeira Internacional Comunista com esse objetivo. Em 1889, foi fundada a Segunda Internacional, que vigorou ate 1914; a Terceira foi fundada em 1919 durante a Revolução Russa. Com esse intercambio de ideais e projetos e valores, o internacionalismo passou a ser considerado um dos valores socialistas mais importantes, na medida em que ele favorecia, entre outros aspectos, a solidariedade entre os países e a continuidade do movimento socialista mundial.
O internacionalismo foi um fator de politização e de ampliação do conhecimento teórico pratico para intelectuais e revolucionários, como os “maluc@s: Marx, Engenls, Lenin, Che, Rosa” e outr@s. As longas vivencias junto a experiências revolucionárias de outros países serviam para que eles reavaliassem as experiências políticas de seus países, dando condições a Lenin de uma participação simultânea no movimento revolucionário russo e no movimento socialista europeu.
A contribuição teórica de Lenin é voltada em grande parte para os estudos políticos, dirigidos ao enfrentamento das questões práticas diante das quais ele e outros revolucionários buscavam respostas: a passagem do Estado burguês ao Estado proletário, todas as questões envolvidas na revolução, tais como a democracia e o reformismo, a questão do poder, o “esquerdismo”, o imperialismo, a questão agrária, entre outras.
Tendo em vista a centralidade que a política ocupa na totalidade da vida de Lenin, não é difícil entender por que sua compreensão ética seja completamente entrelaçada com a sua opção politico ideológica. Por isso, embora não elabore uma teoria ética marxista, em vários de seus escritos encontramos valores éticos, avaliações éticas sobre o movimento e indicações sobre sua própria concepção ética. Eles nos levam a identificação do modo de ser do novo homem socialista, ou seja, ao ethos revolucionário. Mas para isso é preciso compreender a concepção política de Lenin.
Lenin está preocupado com a questão da transformação politico revolucionaria no processo de transição da sociedade burguesa para uma sociedade socialista. Como fazer essa passagem de modo a garantir que toda a sociedade conheça, discuta e legitime novos valores e ideais que contribuam para sua própria emancipação? Como subverter o poder ideológico e a dominação da burguesia? Estas, entre outras, são questões postas aos revolucionários que, como Lenin, representavam as massas e tendo que lhes dar respostas urgentes diante do tempo que na revolução não espera, urge.
Para Lenin, a revolução socialista só pode ser iniciada depois da tomada do poder pelo proletariado e, nesse caso, torna-se fundamental o trabalho político da classe trabalhadora no âmbito da sociedade burguesa, o que supõe: a capacitação de uma minoria, politicamente organizada e moralmente impecável, a vanguarda revolucionaria da classe operaria; a ruptura com quaisquer formas de acomodação a ordem democrática burguesa; a educação política do operariado, das massas e da pequena burguesia, com a finalidade de desenvolver a sua consciência de classe e de agudizar as contradições de classe (Fernandes).
É dessa concepção politica que decorre sua teoria do partido politico e sua compreensão ética. O partido se organiza segundo regras racionais como as de uma empresa capitalista ou de um Estado democrático, conforme Fernandes:
“A ideia básica consistia em que a revolução não nasce pronta e acabada – o partido revolucionário do proletariado deveria travar as suas batalhas, clandestinas ou abertamente, tendo em vista as combinações que poderiam favorecer, em determinado momento, ou o fortalecimento da democracia burguesa, ou o deslocamento desta no sentido de uma democracia operária ou a tomada pura e simples do poder”. (Fernandes)
Na medida em que é o suporte politico ideológico da consciência de classe e da práxis revolucionaria, a vanguarda revolucionaria passa a se configurar como um sujeito coletivo central, ao lado do partido, o que lhe confere determinadas exigência. Nas palavras de Florestan Fernandes, a vanguarda, para Lenin, deve ser capaz de atuar “sem vacilações”, isto é, deve ter uma atuação moralmente impecável, em outras palavras, ela deve ser um exemplo de retidão moral. Vejamos quais são os valores que servem de referencia a Lenin:
“A primeira pergunta que se põe é esta: como se forja a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como se controla? Como se reforça? Primeiro, pela consciência da vanguarda proletária e pela sua fidelidade a revolução, pela sua firmeza, pelo seu espirito de sacrifício, pelo seu heroísmo. Segundo, pela sua capacidade de se ligar, de se aproximar e, digamos, de se fundir ate certo ponto com as massas proletárias, mas também com as massas trabalhadoras não proletárias. Terceiro, pela justeza da direção política que exerce esta vanguarda, pela justeza de sua estratégia e da sua tática politica, com a condição de que as amplas massas se convençam disso por experiência própria.” (Lenin)
Observa-se que os valores: disciplina, fidelidade, firmeza, sacrifício, heroísmo e justiça tem por finalidade a revolução, sendo que a moral está entrelaçada com a consciência de classe. Podemos observar no exemplo anterior que ocorre um processo dialético entre consciência de classe e consciência moral. Para se forjar a disciplina, é preciso tomar consciência de classe através da vanguarda, o que supõe torna-se consciente moralmente (apreender a sua fidelidade, firmeza etc.); tendo consciência politica e moral é possível aproximasse das massas exercendo uma ação politica e ética correta (ação politica justa).
Desse modo, para Lenin, a moral decorre da consciência de classe; logo, é uma forma ideológica de objetivação, seja em sua configuração burguesa ou proletária. Assim, a construção de uma consciência de classe é também o processo de formação de uma nova moral – o processo que começa a se constituir no capitalismo -; por isso a importância da critica a moral burguesa, como parte da luta politico ideológica. É preciso, diz Lenin, que os homens e mulheres aprendam,
“Por detrás das frases, das declarações e das promessas morais, religiosas, politicas e sociais, a discernir os interesses de tais ou tais classes [...]. O proletário instrui-se e educa-se travando sua luta de classe; liberta-se dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão cada vez maior e aprende a apreciar os seus êxitos pelo seu justo valor.” (Lenin)
Em seus discursos, Lenin ressalta a função do elemento moral na luta política:
“Jamais o país esteve tão fatigado, tão desgastado como hoje. Onde conseguia as forças morais para suportar tais privações? É claro, é totalmente evidente que deveria conseguir, em algum lugar, forças morais para suportar tais privações materiais. A força moral, o apoio moral, vós o sabeis, é uma noção vaga, pode-se entender por força moral tudo o que se quiser; pode-se implicar qualquer coisa.” (Lenin)
Lenin destaca a força moral vinda da solidariedade internacional, do Partido e de sua vanguarda, através da incorporação da disciplina e de outros valores morais que – a exemplo da honra e da abnegação – dão forças para enfrentar as privações materiais:
“A força moral do operariado russo é que ele conhecia, sentia, tocava com dedos o auxilio e o apoio que, nesse luta, lhe concedia o proletariado de todos os países adiantados da Europa [...]. Certo desse apoio, nosso proletariado, fraco e pouco numeroso, extenuado pelos os males e privações, venceu graças a sua força moral.
Seguramente quase todo o mundo ve já hoje que os bolcheviques não se teriam mantido no poder, não digo dois anos e meio, mas nem sequer dois meses e meio, sem a disciplina rigorosíssima, verdadeiramente férrea, do nosso Partido, sem o apoio total e incondicional que lhe é dado por toda a massa da classe operaria, quer dizer, por tudo quanto ela possui de consciente, de honrado, de abnegado, influente e capaz de arrastar consigo ou de atrair as camadas atrasadas.” (Lenin)
Lenin é portador de um conjunto de valores que não lhe pertence individualmente – embora ele os defenda enquanto sujeito coletivo e individuo social. Esses valores, mesmo marcados pela personalidade de Lenin, são herdeiros de ideais humano genéricos e de valores nascidos das lutas que antecederam a Revolução Russa. Nesse sentido, não é por acaso que apareçam em outras concepções, marcando o ethos socialista durante todo o século XX.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário